Bem-vindo a Preçolândia!

Saudações, precificadores e precificadoras! O texto de hoje é uma história sobre preços e mercado…
Imagine que você é um viajante.

Você acabou de chegar à uma cidade com um nome bem peculiar: Preçolândia.

people walking near concrete buildings
Foto por Yuting Gao em Pexels.com

Preçolândia é uma cidade onde, por lei, todos os imóveis devem possuir, nas suas fachadas, um enorme painel informando, a cada minuto, os seus respectivos preços de venda.

A padaria da praça do centro de Preçolândia possui hoje um enorme quadro informando o seu preço de venda desse mesmo dia: R$ 300.000,00

Esse preço é diferente do de ontem, quando o seu Manoel, o dono da padaria, não tinha interesse na venda do seu negócio e, por isso, o preço que ele se propunha a vender era R$ 400.000,00.

E isso acontece em todos imóveis da cidade.

O prédio que possui lajes corporativas para alugar possui um placar com o seu preço de venda: R$ 500.000,00.

O pequeno shopping da cidade também: R$ 5.000.000,00.

O galpão que armazena o estoque de uma grande varejista que possui uma filial também em Preçolândia: R$ 3.000.000,00

Por uma determinação do prefeito, tais painéis de preços são conectados ao smartphone de cada morador de Preçolândia, sendo que todo proprietário de imóvel precisa manter atualizado constantemente os preços de venda de seus imóveis.

Não há como escapar.

Os preços de todos os imóveis da cidade ficam expostos 24 horas por dia, piscando com uma luz verde ou vermelha para cada variação de preço estipulada por seus proprietários em seus smartphones.

stock exchange board
Foto por Pixabay em Pexels.com

Os painéis de preços são difíceis de se ignorar.

A cada mudança no preço, reações são vistas pelos moradores de Preçolândia.

Basta um imóvel piscar com a cor verde (preço aumentando) para se perceber uma euforia ser gerada no meio dos especuladores da cidade.

Quando isso acontece, o comentário que mais se ouve é: “Dessa vez é diferente, as reformas vão passar e os preços vão disparar. Vamos todos ficar multimilionários com os imóveis. ”

No entanto, o seu Manoel (dono da padaria), decidiu vender o seu imóvel por um preço abaixo do ideal, pois estava precisando de liquidez para tratar de assuntos pessoais.

Bastou a luz do painel de sua padaria piscar com a cor vermelha (preço diminuindo de R$ 400.000,00 para R$ 300.000,00) para que uma onda de desconfiança tomasse conta dos especuladores de imóveis de Preçolândia.

“Deve ter acontecido alguma coisa em Brasília. As reformas não vão mais ser aprovadas”.

“Estamos entrando em uma nova recessão, é hora de vender todos os imóveis e fugir para as colinas”.

Comentários desse tipo começaram a se espalhar, pelo simples fato do seu Manoel estar precisando de certa liquidez para assuntos pessoais.

A desconfiança e a insegurança tomaram conta dos especuladores de imóveis de Preçolândia.

Negócios pararam de ser feitos.

Os preços expostos nos painéis começam a mudar sem nenhuma razão aparentemente racional.

Ninguém sabia o motivo de os preços estarem mudando, e isso gerou um cenário de ansiedade coletiva nos moradores da cidade, o que, por sua vez, fez os preços expostos nos painéis mudarem de maneira ainda mais impactante, com uma frequência cada vez maior.

Os preços dos imóveis ocuparam as discussões da cidade.

Todo mundo só falava nisso em Preçolândia.

O que estava acontecendo?

“Maldita guerra comercial”, alguns comentavam.

“Está claro que isso é consequência da delação do Palocci”, outros sugeriam.

“Sabia que o Brexit iria repercutir por aqui”, ouviu-se discutir.

Ninguém, de fato, sabia que o que desencadeou tal histeria coletiva foi o fato de o seu Manoel da padaria estar precisando de capital.

Mas isso não importou para a população de Preçolândia.

O que importou é que cada um tinha a sua própria teoria sobre os motivos, e isso causou uma histeria coletiva que derrubou os preços de praticamente todos os imóveis da cidade, e quem se manteve calmo e sereno fez excelentes negócios, comprando imóveis de alto valor a preços muito descontados.

É claro que o cenário acima é uma ficção.

Preçolândia não existe, muito menos os painéis presentes nas fachadas de cada imóvel dessa cidade.

Contudo, os fundos imobiliários possuem tais painéis, e os mesmos se encontram a um clique de distância de nossos olhos.

Em um cenário normal, os FIIs mais movimentados podem ter cerca de 200 negócios sendo feito por meio de suas cotas, por dia.

Em dias de stress, o número desses negócios diários pode superar a casa do milhão.

Esse cenário não é muito diferente do que se viu em Preçolândia.

Infelizmente, o único remédio para conter essa aflição é o conhecimento.

Não adianta tentar criar teorias mirabolantes para cada movimentação de altas e baixas no mercado.

Isso sempre aconteceu e sempre vai acontecer na renda variável.

Quem está começando agora na renda variável, no entanto, é bem provável que seja influenciado por esses painéis coloridos e, por conta da emoção, acabe perdendo dinheiro e saindo mal do mercado de capitais para os seus próximos.

Dito isso, se você está começando a investir em FIIs agora, lembre-se sempre de Preçolândia e dos seus moradores.

Quando estiver diante de uma variação no preço das cotas, sempre se pergunte se alguma bomba nuclear possa ter explodido em algum lugar do país ou se seria apenas o seu Manoel vendendo as suas cotas por algum motivo pessoal.

Faça isso e o seu senso crítico de capacidade de análise irá melhorar bastante em termos de investimentos em bolsa de valores.

Faça isso pois, no longo prazo, os seus resultados serão muito mais satisfatórios do que os dos moradores de Preçolândia, pode ter certeza.

Postado originalmente em FIIS.com.br.

2 comentários em “Bem-vindo a Preçolândia!

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