Homens, engenharias e rumos sociais

Saudações, engenheiras e engenheiros!

O livro de hoje é mais um daqueles achados do sebo, igual outros que já comentei aqui. Homens, Engenharias e Rumos Sociais foi o último livro publicado por Gilberto Freyre, em 1987, ano de sua morte. Você já deve ter ouvido esse nome devido a sua obra mais famosa, Casa Grande e Senzala.

Neste livro, o autor aborda a relação das cidades, construções, moveis e utensílios com as pessoas, sua adaptação a elas. Logicamente, por este ponto de vista, não faltam críticas a construção de Brasília, por ela ter se esquecido da dimensão humana em sua concepção. Em vários trechos da obra ele menciona essa falta de adaptação da cidade em relação as pessoas e ao clima local, dando ênfase nas janelas envidraçadas em meio a um lugar tão quente.

Outro ponto interessante e que não esperava ver nessa obra é a crítica dele em relação ao ensino superior e sua pretensão de ser universal, dando diploma a todos, tanto capazes quanto incapazes. Nos trechos que separei da obra fica clara a crítica.

Também vai ser possível perceber a densidade do texto. Confesso que foi uma leitura difícil, por vezes tediosa, mas valeu a pena. O estilo do autor é bem rebuscado, diria até confuso as vezes, e é comum ter que reler mais de uma vez algum paragrafo para entender bem o que ele quis dizer.

Abaixo, alguns trechos do livro:

O que principalmente alegara o autor com relação ao modo que se construiu a aliás admirável Brasília é que essa construção se fizera como pura obra – ou quase pura – de engenharia física ou, mais restritamente, de arquitetura estética: de magnífica e até esplendorosa arquitetura estética. Obra entregue exclusiva e arbitrariamente a dois na verdade magistrais arquitetos ou, para efeito de classificação geral de sua especialidade, engenheiros físicos. Que engenheiro humano fora ouvido? Que engenheiro social? Que antropólogo? Que ecólogo? Que sociólogo? Que psicólogo? Que educador? O resultado foi uma nova e fisicamente grandiosa cidade, mas na sua parte de engenharia humana e de engenharia social nem sequer adaptada brasileiramente a sua ecologia tropical: com um excesso de vidros de excessiva imitação de uma engenharia física concebida e desenvolvida pelo suíço Le Corbusier para a Europa Central: para as condições de luz, de atmosfera, de ar, de paisagem, de meio, de ambiente natural do centro, durante grande parte de cada ano, brumoso, sombrio, muito mais boreal do que tropical, da Europa.

Qual a moderna atitude dos Estados Unidos com relação ao problema? Esta: o reconhecimento de que os indivíduos são desiguais em suas capacidades inatas tanto quanto em suas motivações e, por conseguinte, vem a ser também desiguais nas realizações de que os tornam capazes aquelas aptidões e para as quais os incluíam aquelas motivações. Donde ser dever de uma comunidade democrática, ao mesmo tempo que reconhecer tais diferenças, não sacrificar a um falso democratismo aquela “concepção de excelência” que favoreça os indivíduos supradotados, dando-lhes faculdades para a preparação e o desempenho de funções e que somente eles são capazes.

Inclusive com relação as elites intelectuais: serão elas dispensáveis com o crescente uso de computadores ou de máquinas de ensinar na educação e na cultura, tornando scholars, intelectuais, líderes pela inteligência, figuras obsoletas? Os indícios são que não. Parece escapar à genética o poder – uma forma biomecânica de engenharia física ou de engenharia humana que se projetaria na social – de produzir gênios ou inteligências criativas que dispensassem aquelas que provem de surpresas, e não tanto de constantes hereditárias. Da Vincis. Beethovens. Shakespeares e Goethes. Cervantes e Machados de Assis.

Evidentemente, vem se repetindo na Amazônia e noutras áreas o erro enorme cometido na admirável criação apenas tecnológica ou estética de Brasília sob o governo de Juscelino Kubitschek: a ausência, nesse empreendimento, do engenheiro humano e do engenheiro social.

O ponto em que insisto, sem prejuízo do fato de continuar um mais do que apologista, um entusiasta, do arrojo de modernidade que Brasília representa – arrojo que dá ao presidente Juscelino Kubitschek um relevo de figura já histórica – é este: mais do que pura obra de arquitetura escultural, a nova capital do Brasil deveria ter sido considerara pelos seus idealizadores e construtores obra de engenharia social. Por conseguinte, complexa. Tremendamente complexa.

O que se está fazendo no Brasil por tais indivíduos, nos diferentes ramos de estudos superiores? Parece que pouco. Pouquíssimo. Quase nada. Ao contrário: pretende-se que as universidades sejam santas casas de misericórdia, que diplomem tanto incapazes quanto capazes.

Nem a genuína democratização do ensino universitário será a que sacrifique a qualidade desse ensino à mística de alcançarem-se, de qualquer maneira, grande número de jovens empenhados apenas em se diplomarem. E que se diplomassem por caridade intelectual.

Faltam-nos de todo especialistas em engenharia humana capazes de auxiliar os engenheiros físicos, os engenheiros sociais, os administradores, os industriais, em problemas dessa natureza que do presente se projetem sobre o futuro. A própria Fundação Ford, foi em que fracassou, no pretender instalar-se no extremo tropical do Brasil com plantações sistemáticas de borracha: em engenharia humana. Faltou-lhe orientação desse caráter em seus projetos de valorização de populações operárias formadas, em grande parte, por caboclos da tropicalíssima Amazônia, aos quais técnicos anglo-americanos, desconhecedores dos trópicos, pretenderem impor, da noite para o dia, hábitos de trabalho, de alimentação, de habitação, de convivência, iguais aos em vigor em Michigan ou Ohio.

Em vão sociólogos brasileiros arcaicamente marxistas ou comunistas procuram dar aparências científicas à tese de que estão para se acentuar no Brasil, entre grupos para eles em ascensão, consciências de raça negra em revolta contra dominadores brancos. A trama é evidente: a confusão, de fins comunizantes, de luta entre raças com luta entre classes. Trata-se de um empenho que não faz honra à honestidade de tais sociólogos, não sendo raros os marxistas mais objetivos no seu trato do assunto que aceitam como validamente sociológica, além de antropológica, a interpretação da situação brasileira como metarracial e do amoneramento da população do Brasil como um processo biossocial com implicações suscetíveis de ser consideradas socialmente democratizantes.

O livro está disponível na Amazon, no link abaixo:

HOMENS, ENGENHARIAS E RUMOS SOCIAIS – GILBERTO FREYRE

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Você já leu este livro? Qual sua opinião sobre ele?

Até semana que vem, com mais um livro!

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