O pé sente o pé quando sente o chão

Foto por Cindy Gustafson em Pexels.com

Tem uma frase famosa que algumas pessoas costumam dizer que é mais ou menos assim… “só vai dar valor depois que perder”. Obviamente, a maioria das pessoas que falam isso é porque estão se sentindo desvalorizadas, seja em um relacionamento ou no emprego.

Mas não deixa de ser algo verdadeiro. É somente na ausência de algo que sentimos sua falta, neste sentido só sente falta de enxergar quem possui alguma deficiência visual, do contrário ela apenas enxerga e nem percebe a maravilha que é desfrutar deste sentido do corpo.

A felicidade depende do sofrimento para que seja percebida. A frase que dá título a este post ” O pé sente o pé quando sente o chão” é de Sidarta Gautama, mais conhecido como Buda. É incrível como é verdadeira e perturbadora, só temos consciência de nosso corpo quando ele entra em contato com atrito de algo, seja uma roupa confortável ou um sapato apertado.

O primeiro emprego que eu tive com carteira assinada foi como office boy em uma importante agência de propaganda e marketing, eu tinha quatorze anos. Muito jovem, mas me lembro bem que no departamento de criação existia cesta de basquete, vídeo games,  uma mesa de pebolim ( alguns lugares chamam de totó). Um ambiente muito parecido com o das startups de tecnologia de hoje.

Meu departamento ( expedição), obviamente não podia usar aqueles recursos da empresa, eram para os criativos, mas no horário do almoço era liberado. Eu lembro bem que montávamos duplas e competíamos com o pessoal de criação. Era visível que a vontade e prazer em jogar pertencia a nós (office boys), que tínhamos poucos minutos disponível para brincar naquele jogo do que dos funcionários que tinham acesso ao brinquedo a qualquer momento.

Taleb é o cara

A sensação de prazer se intensifica com a ausência. Este é um dos conceitos mais fáceis de explicar do fenômeno de antifragilidade amplamente difundido por Nassin Taleb, assim como também a volatilidade não deve ser considerada um risco.O que seria do prazer de tomar água sem sede? De uma noite de descanso sem enfado e sono?  De um bom pedaço de pão se não existe fome? Os exemplos beiram o infinito, filosofias antigas já propagavam a necessidade de não evitar determinados sofrimentos. Epicuro dizia:

“[…] todo prazer constitui um bem por sua própria natureza; não obstante isso, nem todos são escolhidos; do mesmo modo, toda dor é um mal, mas nem todas devem ser evitadas”.

A vida FIRE sem sofrimentos

Uma das principais razões que me fizeram buscar a caminhada FIRE foi para não precisar mais acordar super cedo, passar horas dentro de um escritório cheio de pessoas que não gostava fazendo coisas que não queria. Tudo isso desapareceu, e da mesma forma, parte do prazer que sentia ao apreciar cinco minutos de paz, de sentir imenso contentamento ao deitar em minha cama depois de um dia estressante de trabalho.

O que quero dizer é que a ausência de determinados “sofrimentos” trouxe também menor prazer para outras coisas que dava imenso valor naquela época. Acho que é por isso que gosto tanto de acampar e fazer trekking, existe um certo sofrimento que é recompensado ao final, seja por um simples banho ou por poder voltar a dormir em uma cama depois de dias dormindo no chão.

A gente procura sempre buscar algo que seja mais confortável e agradável para nossas vidas, mas ao mesmo tempo prejudicamos nossos sentidos e perdemos parte de nossa humanidade ao fazer isso, como disse Buda… O pé só sente o pé quando sente o chão.


Texto publicado originalmente em Sapien Livre.


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